O dia em que pedalei 200 Km

Quando o ciclismo entrou na minha vida eu achava impossível que eu um dia pedalasse um longão de 100 Km. Era inconcebível. Lembro quando consegui fazer a marca dos 3 dígitos, foi mágico. A partir daí digamos que "subi o sarrafo", pensava que poderia,  após muito treino, chegar aos 150 km, mas 200 Km era algo fora do meu alcance.  

Há tempos eu vinha me programando para fazer um pedal mais longo, esperei minhas férias para colocar o plano em ação. Após ter ido pedalando a Morretes e subido a Estrada da Graciosa (PR-410) fui tomado pelo ímpeto de chegar aos 200 Km. Para empreender essa árdua tarefa escolhi o seguinte trajeto: Curitiba a Praia de Leste (Pontal do Paraná) e retornar novamente a Curitiba. Um pedal de aproximadamente 194 Km (completaria os 6 Km restantes dando uma volta no Parque Náutico do Iguaçu).  

    Comecei a ficar e olho na previsão do tempo (quem gosta de fazer longas distâncias pedalando sabe o quanto as condições climáticas são importantes). Decidi que iria no dia 18/09, mas um forte nevoeiro e a promessa de um dia muito quente me fizeram declinar. A nova data escolhida foi dia 22/09, mas dessa vez ventos fortes (22km/h L) me fizeram desistir mais uma vez. Já estava ficando impaciente. Mas no dia 23/09 (mesmo com previsão de fortes ventos do Leste) decidi desafiar a sorte. Para tal pedal escolhi uma bicicleta híbrida (Btwin Riverside 520, com um cassete 11-34, coroa única de 34 dentes e pneus 700x40), entretanto estava apreensivo com a escolha, pois ainda não havia percorrido longas distâncias com a bicicleta em questão. 

    O dia amanheceu nublado e frio, mas não havia vento. Saí de minha casa as 05h58 e segui rumo a BR277. Na rodovia encontrei três ciclistas que também desafiavam a fria manhã,  procurei empreender um ritmo bem tranquilo, pois tinha que dosar minha força para não quebrar. Logo ultrapassei o limite entre os municípios de Curitiba e São José dos Pinhais, na subida para a Academia Policial do Guatupê ultrapassei os três ciclistas. Aí tive o meu primeiro contratempo: dores na coluna cervical. Eu havia abaixado a altura da mesa do guidão (pensando em performance) e percebi que o selim estava um pouco alto. Insisti por alguns quilômetros, mas ao chegar ao pedágio tive de fazer uma parada e fazer ajustes na bicicleta. Os ciclistas passaram por mim novamente (um deles até perguntou, gentilmente, se tudo estava em ordem com a bicicleta e se eu precisava de ajuda) e fizeram o retorno em frente a Policia Federal e retornaram sentido Curitiba.  

    Ajustes feitos! Segui meu caminho. A serra do mar se mostrava imponente no horizonte. Aparentemente não havia nevoeiro e o clima estava ameno. Quem já pedalou pela região sabe que antes de chegar a decida da serra, a BR277 nos presenteia com algumas subidas, foi justamente pensando em subidas que escolhi a Btwin Riverside para tal empreitada. Ela usa pneus 700x40 (Mitas V71, que quase troquei por meus antigos Pirelli Phantom Street 700x38, mas fiquei com o Mitas por suportaram maior PSI) e possui trava na suspensão, o que teoricamente ajuda nas subidas mais íngremes. E chegou a tão esperada descida da serra! A descida da BR277 é emocionante, com uma paisagem de tirar o folego. O trecho mais radical fica entre os viadutos do Caruru, dos Padres e Moro Alto. A velocidade que bicicleta alcança é alucinante, é preciso atenção e raciocínio rápido. A impressão é que a descida não vai terminar, mas após muita diversão já visualizei o Viaduto Dom Moacyr José Vitti, que dá acesso ao município de Morretes.  

    Apenas quarenta quilômetros de trecho predominantemente plano me separava da Praia de Leste. Diminui o ritmo, tentando encaixar uma cadencia que me permitisse preservar minha energia. Na minha opinião esse trecho é o mais monótono, parece que você pedala e não sai do lugar. Logo cheguei ao SAU (Serviço de Atendimento ao Usuário) da Ecovia e decidi fazer a primeira parada do pedal. Dessa vez fui melhor preparado no quesito alimentação, nada de apenas barrinhas de cereais. Minha relação de alimentos contava com os seguintes itens:  

  • 4 bananas 
  • 1 maça 
  • 3 Club Social Integral 
  • 1 pacote pequeno de amendoim 
  • Snickers 
  • 1 Barra de Cereal 
  • 1 Isotônico  
  • 2 garrafas de água (850ml + 650ml)  

    Na primeira parada comi apenas uma banana e tomei bastante água. Após poucos minutos já estava na estrada novamente, logo passei pelo acesso a PR508 (Alexandra - Matinhos) e após uma leve subida já estava pegando a PR407, rodovia que dá acesso a Pontal do Paraná. São aproximadamente 20 km de reta até o mar, uma estrada cercada por uma densa vegetação típica da região de litoral. A estrada estava estranhamente movimentada para um dia de semana. Além do constante trafego de carros e caminhões, muitas bicicletas circulam pela PR470. Logo me deparei com obras na pista, um longo trecho de recapeamento, tive que tomar muito cuidado, pois os carros invadiam o acostamento devido ao bloqueio. Quase no término da PR470 mais obras! Uma obra duplicação de dois quilômetros, um verdadeiro caos. Depois de muito pedalar vi o acesso a PR412 (que  acesso a Pontal do Paraná), virei à direita logo na primeira rua (Rua Baronesa do Cerro Azul) e logo pude ver o mar! Que sensação maravilhosa! Havia conseguido mais uma vez (em setembro de 2020 fui pedalando até Guaratuba, mas retornei de carro).  


  
 
Cheguei a Praia de Leste!


    A sensação de chegar à praia pedalando é única. Um sentimento de conquista. Mas dessa vez eu teria que retornar para Curitiba pedalando, não vou negar que estava muito ansioso. após tirar algumas fotos me dirige a Avenida Aníbal Khury (Avenida Beira Mar) e procurei um banco para descansar. Aproveitei para comer e me hidratar. A corrente da bicicleta estava em um estado deplorável! Estava usando um lubrificante úmido e a areia da praia impregnou na relação. Mas estava preparado: sempre carrego ferramentas básicas e nessa oportunidade estava munido com o lubrificante para a corrente. Limpei a sujeira mais grossa com um pedaço de papel e lubrifiquei novamente. Estava pronto para o regresso a Curitiba, sabia que não seria fácil. O importante é que eu estava bem, sem dores críticas. 









Assim que acessei a PR407 e vi a placa que indicava a distância a Curitiba: 95 quilômetros!  Me concentrei em manter uma cadencia que proporcionasse uma boa média de velocidade, mas que não destruísse o restante da minha energia. O clima continuava ameno e nada de vento! A bicicleta proporciona um novo panorama sobre locais em que você está habituado a transitar de carro (geralmente em alta velocidade). Uma espécie de vivência, uma análise mais aprofundada do cotidiano do litoral. Pude observar a rotina dos moradores, seu ritmo mais lento, muito diferente da correria que os grandes centros urbanos impõem aos seus moradores. Sem surpresas cheguei a BR277, a serra do mar já mostrava seus traços no horizonte e minha missão era girar o pedivela. A sorte estava ao meu lado, pois o vento estava a favor, já havia ultrapassado a barreira dos 100 quilômetros e estava bem.  

    Em um pedal de 200 Km o psicológico é tão importante quanto o prepara físico, ainda mais um pedal solo. Passa muita coisa estranha pela cabeça: "Será que vou conseguir?", "Será que não vou quebrar?", "Que barulho estranho é esse na bicicleta?", etc. Você precisa focar em seu objetivo, ter paciência e resiliência. Ao chegar ao limite de municípios entre Paranaguá e Morretes optei por fazer mais um breve parada. Sentei em uma guia na beira da estrada e comi uma maça, os caminhões passaram em elevada velocidade que quase derrubando a minha bicicleta. Retornei ao pedal e fiz planos de fazer mais uma parada quando chegasse ao pé da serra. O trajeto entre o limite de municípios de Paranaguá e Morretes até o Viaduto Dom Moacyr José Vitti é plano, aproveitei para desenvolver uma boa velocidade. A serra do mar estava cada vez mais próxima e eu sabia que o desafio seria grande. Fiz mais uma parada, aproveitei para tomar um isotônico e o cansaço comecei a dar as caras! Travei a suspensão da Btwin, escolhi uma marcha que proporcionasse uma cadencia coerente com o estágio do pedal. A subida chegou, a cada pedalada ela se mostrava mais íngreme, logo vi a placa que anunciava o início da terceira faixa (ai que a subida fica brava). É vital ter disciplina, empreender um ritmo, manter, perseverar e não se desesperar.  

Uma pausa para comer uma maça

    O sol decidiu aparecer, não fiquei nada feliz, começou a esquentar e o que estava difícil ficou ainda pior. Os caminhões sofriam com a forte subida, sem o acostamento a tensão era maior. Com muito esforço cheguei a Lanchonete Bela Vista, nesse local há uma bica d'água (não posso afirmar que a água seja potável) e aproveitei para encher minhas garrafas de água. Decidi comprar um refrigerante na tal lanchonete (R$5 em uma Pepsi Black!). Após comer mais uma banana segui viagem. A parte mais dura da subida da serra estava bem a minha frente e o cansaço estava aumentando.  

    Pelo meu planejamento a próxima parada seria no Viaduto dos Padres, o problema é que da Lanchonete Bela Vista até lá são sete quilômetros com uma elevação de aproximadamente 400 metros! Para ajudar o trecho citado estava com obras em uma das pistas, o que fazia com que a ausência de acostamento deixasse tudo mais dramático. Alguns caminhoneiros são muitos gentis, mas uma pequena parcela é terrível. Um caminhão Bitrem passou a poucos centímetros, mesmo com espaço ele fez questão de me dar a tal "fina educativa". Minha velocidade era baixa, mas constante. Comecei a ficar enjoado (acredito que pelo ácido lático) e a cervical estava terrível.  


Parada na Lanchonete Bela Vista

O cenário da Serra da BR277

Metade da Serra vencida!

    Por fim cheguei ao Viaduto dos Padres, estava morto. Decidi fazer uma pausa maior, tomei a Pepsi (que estava vencida!) e comi alguns biscoitos salgados. O enjoo foi diminuindo, a coluna cervical sempre melhorava minutos após descer da bicicleta. Ainda restavam aproximadamente 50 quilômetros para o término da "aventura", não seria fácil. Comecei a pedalar novamente, a subida já não era tão forte (ainda restavam mais 400 metros de subida!) pois nesse ponto ela começa a se distribuir de maneira mais tranquila. Como estava muito cansado comecei a estabelecer metas para que o desanimo não tomasse conta do pedal. Minha próxima meta era chegar à praça de pedágio (20 Km), e sabia que após passa o pedágio só teria um grande trecho plano pela frente. O importante era não parar de pedalar, cada giro do pedivela eu me aproximava do meu objetivo. Como já citei anteriormente, o fator psicológico é fundamental. Passei o Viaduto Caruru (a vista desse ponto é estonteante, mesmo nublado a paisagem é magnífica) depois o Rio da Serra e tome subida. Após muitas curvas e retas cheguei ao limite de município entre Morretes e São José dos Pinhais (Quebrado). Comecei a melhorar fisicamente e a proximidade da praça de pedágio deixava tudo melhor. Após uma sucessão de pequenas subidas e descidas pude visualizar o esboço da praça de pedágio no horizonte! Até lá há duas subidas, mas só de saber que ao chegar lá estaria livre de todas as subidas o ânimo aumentou. Por fim cruzei a praça de pedágio e fiz uma parada próxima do Serviço de Atendimento ao Usuário, bebi muita água, mas já não tinha estomago para comida, até tentei comer uma banana, mas sem sucesso.  

Viaduto dos Padres, quase quebrei

  O Strava marcava 170km, do pedágio até minha casa são aproximadamente 24 quilômetros, para completar os 200km eu teria que dar uma volta no Parque Náutico, seria difícil, entretanto estava muito perto para desistir. Tinha uma imensa reta até a saída próxima a Coca Cola, o vento continuava a favor e pude empreender um excelente ritmo. Mal pude acreditar que ainda tinha forças para pedalar em uma média tão boa, logo passei o Contorno Leste, Avenida Rui Barbosa e por fim sai da BR277. Entrei na Rua Dr. Gabriel Ferreira Filho e segui em direção ao Parque Náutico, passei a Avenida Comendador Franco e continuei na Rua Bley Zornig. Fiz um acesso secundário ao Parque Náutico e parei para conferir o Strava: 194Km. Uma volta bastaria (uma volta no Parque Náutico possui a extensão de 5,3Km) para ir para casa e então fechar os 200Km. Mal tinha começado a pedalar pelo parque comecei a ouvir um barulho estranho no pneu traseiro: pneu furado! Não podia se quer reclamar, mas só a ideia de trocar a câmara já me deixou cansado. Parei, peguei a bomba de mão e tentei encher o pneu, encheu bem pouco e mesmo assim decidi continuar. Pedalei uns 3 quilômetros e tive de encher o pneu novamente. Restava muito pouco! Enchi novamente o pneu e completei a volta. Agora só restava chegar em casa. 

    E por fim cheguei na minha casa. Consegui! Foi reconfortante ouvir meus cachorros latindo! Havia feito 201Km! 8 horas e 14 minutos de pedal. Uma experiência que recomendo a todos apaixonados por bicicleta. Um pedal solo de 200km é uma oportunidade de testar seus limites (físicos e psicológicos) e praticar a reflexão. A bicicleta nos dá novas perspectivas, exercita a paciência e fortalece o espírito. Nunca irei esquecer desse dia! Pedalar é preciso.  





 

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