Sempre fui apaixonado por carros. Lembro do primeiro carro que meu pai comprou, um Volkswagen Passat LS, 1981, na cor bege. Eu ficava horas e horas dentro daquele carro, era espetacular. Nos anos 80 e 90 o carro não era tão acessível como hoje, ter um carro na garagem era motivo de muito orgulho. Muitas famílias investiam na compra de veículos, pois naquela época o Brasil passava por uma grave crise econômica e tínhamos uma inflação galopante. O carro não era visto como um bem de consumo, mas sim um investimento. Eu ficava sonhando com o dia em que eu pudesse ter meu carro! Seria fantástico, poderia ir para qualquer lugar de forma rápida e com estilo. Só fui ter meu primeiro carro aos 21 anos, um velho Chevrolet Monza SLE, 1989, na cor preta. Era a realização de um sonho! Passara horas e horas do meu tempo livre só cuidando do carro. Lavar o carro aos domingos era algo sagrado! Começava as 8h e só finalizava o processo (lavar, encerar, passar aspirador, etc.) lá pelo final da tarde. Procurava usar o carro sempre que possível, ia ao trabalho, faculdade, supermercado, shopping, farmácia, passeios de final de semana, entre outros locais. Foi a partir daí que conheci outras facetas ao ser um proprietário de veículo auto motor: os custos, trânsito e stress.
Custos
Ter um carro, seja novo ou antigo, gera muitas despesas. Não pense apenas um combustível, há muitas outras coisas (sem contar as surpresinhas). Mesmo que você tenha um carro novinho, super moderno, antenado com as novas práticas do setor automotivo, você terá um alto custo para manter esse "conforto". Se o carro for usado então.... prepare-se. Meu primeiro carro era bem antigo, gastava muito combustível e sempre tinha algo para arrumar. Após quatro anos de muita dor de cabeça optei por comprar um carro mais novo. Mesmo assim sempre tive que dar aquela passadinha no mecânico. Mesmo quando seu carro está com a mecânica em dia, você ainda terá que pagar IPVA, seguro, estacionamento (caso seu trabalho não conte com estacionamento, sua despesa será maior), sem contar depreciação.
Trânsito
Minha paixão pelo carro começou a diminuir quando tive de enfrentar o trânsito diário. No início era até divertido, mas com o passar dos dias o divertimento deu lugar ao stress. Tentava novas rotas (o olha que naquela época não havia aplicativos de mobilidade) e o resultado era o mesmo. Se você já enfrentou as ruas de um grande centro urbano na hora do rush sabe do que eu estou falando. Há muita tensão entre os motoristas, muita gente mal educada e muitos "espertinhos". Enfrentar o trânsito era penoso, como em toda grande cidade, em Curitiba há pontos críticos, e minha paciência foi se esgotando.
Stress
Posso afirmar que o principal fator que me fez optar pela bicicleta foi o stress gerado pelo uso diário do carro. Sem perceber você vai ficando cada ver mais impaciente, situações corriqueiras são motivos de buzinas e xingamentos. Até mesmo para estacionar eu me estressava. Meu trabalho conta com estacionamento, mas como quase todos funcionários possuem carro a luta por uma vaga sempre foi ferrenha. Chega um horário em que o estacionamento fica abarrotado, caso alguém necessite sair mais cedo.... o circo está armado. O ápice do stress ocorreu em uma manhã em que estava me dirigindo a faculdade. Ao chegar a um cruzamento (mais precisamente, para quem conhece Curitiba, entre a Rua Anne Frank e a Linha Verde) um ônibus de viagem me deu uma senhora fechada! Fique puto, alcancei o motorista e fiz um gesto (não obsceno) chamando sua atenção. O motorista do tal ônibus me alcançou no próximo semáforo e começamos uma discussão que acabou em agressão física, ele me acertou um soco e eu revidei com outro. Tudo acabou assim, o semáforo ficou verde e voltamos aos nossos respectivos veículos e retornamos nossa rotina. Mas poderia ter sido diferente, são frequentes os casos de brigas de trânsito que acabam em morte. Foi por meio desse acontecimento que percebi que tinha de mudar de vida.
A mudança
Eu já usava a bicicleta para ir ao trabalho, mas de maneira bem esporádica. Eu via a bicicleta como algo menor, não como um meio de transporte. Usava várias desculpas para não usar a bicicleta:
_"Vou chegar todo suado ao trabalho",
_"E se chover!?",
_"Andar de bicicleta é perigoso",
_"O que o pessoal do trabalho vai pensar?"
Quando passei a usar a bicicleta para ir ao trabalho comecei a constatar o que estava perdendo. Fiquei espantado como a bicicleta é rápida (em muitos casos, dependendo do horário e local, é mais rápida que o carro) e prática. O deslocamento de carro era um momento de stress, com a bicicleta passou a ser uma diversão. Ao chegar ao trabalho não ficava preocupado se haveria vaga disponível para meu carro! No momento de ir embora eu era o primeiro a sair. Acredito que a palavra que melhor define a bicicleta é simplicidade. Claro que há desafios. Enfrentar a loucura e falta de empatia dos motoristas é um deles. A mentalidade de alguns motoristas é aterradora. Se sentem donos da rua, dentro de seus grandiosos SUVs ditam quem pode ou não circular pelas ruas. Quem nunca levou uma "fina educativa"? Ou escutou a seguinte pérola: _ "Vá pedalar no parque!" O brasileiro em geral é muito estupidei inegável que o carro entrega conforto em algumas situações (o problema não é o carro, mas o uso desnecessário que as pessoas fazem dele), entretanto os custos e stress gerado vale a pena? O sistema não quer que você pedale, denigre o uso da bicicleta e desestimula o uso da mesma. A verdade é que o ciclista não traz lucro ao sistema, enquanto que um motorista é um combo de ganhos ao estado. Sou cético em relação ao crescimento do uso da bicicleta nos últimos meses (muitos passaram a usar a bicicleta como meio de locomoção devido a pandemia). Infelizmente nossa sociedade vê no carro um "termômetro" do status social. O carro não é apenas um veículo automotor, mas um objeto que reafirma sua posição na sociedade, o quão "importante" e bem sucedido você é. Um cenário triste e com escassa chance de mudança. Muitos retornarão para seus carros e voltarão a tratar os ciclistas como um "invasor" das vias públicas. Cabe a cada ciclista resistir, transitar com sua bicicleta nos grandes centros urbanos não é uma benesse dos motoristas, mas sim direito de cada um.
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